Vinha para casa e na rádio ouvi que quando se tem uma relação com alguém, que a roupa com que dormimos é mais ousada do que se estivermos solteiras, sobretudo no início.
Achei piada ao que estavam a dizer e não poderia deixar de concordar. Aliás, vendo e olhando para mim, não faz mal se tenho meias às riscas, às bolas ou com buracos nos dedos, por baixo de uma roupa sóbria, afinal não há ninguém para ver.
Não faz mal se a cor do soutien e cuecas não combinam e se têm os elásticos largos, porque lá está, não existe ninguém para ver.
Podemos chegar a casa, descalçar os saltos, aterrar os pés em pantufas com focinho de animal e vestir aquele pijama que nos faz incrivelmente mais gordas, sem que nos sintamos desinteressantes aos olhos de alguém.
No meio desse pijama que nos aumenta as formas, embrulhamo-nos numa manta e vemos um filme qualquer que passa na televisão, com qual possamos ou não derramar lágrimas à vontade sem parecermos demasiado sensíveis e enquanto isso, enchermo-nos de chocolate ou de outra porcaria qualquer, que se alojará silenciosamente no nosso rabo ou nas nossas coxas.
E a cama? Quem bom podermos ter uma cama King Size só para nós. Podermos dormir ao alto, ao largo ou mesmo enfiar os putos na nossa cama, quando eles choram porque têm pesadelos e quando não queres, nem tens tempo para estar a tentar explicar que têm de dormir obrigatoriamente na sua cama.
Mas no meio destas simples coisas, que não me irritam e com as quais eu vivo bem, há também o outro lado. Há sempre, não é?
A outra face da moeda, de me enternecer ao ouvir uma colega chamar de Amor ao marido em tom doce. De ouvir perguntar se é preciso comprar algo para o jantar e de no fundo eu mesma sentir que tenho as pantufas com focinho de animal à minha espera, mas não existe ninguém por quem eu esperar. Não existe aquele abraço ao final de um dia cheio. Não existe aquela simples conversa, de como correu o teu dia ou aquele malandreco apalpão no rabo.
Mas na dualidade do que tenho e do que não tenho, existe em mim aquela voz interior que eu não sei o género, mas que me diz que as coisas boas demoram tempo a chegar. Que tudo tem o seu tempo certo para acontecer.
É mesmo assim, não é?

